Veado preto é registrado pela primeira vez no Pantanal; veja flagra
25/08/2026
(Foto: Reprodução) Inédito: veado preto é visto pela primeira vez no Pantanal
Pesquisadores da ONG Onçafari registraram, pela primeira vez na história, casos de melanismo em cervos-do-pantanal. Os chamados "veados-pretos" foram localizados no Pantanal de Mato Grosso do Sul e no bioma Cerrado, na divisa entre a Bahia e Minas Gerais.
🔎 O melanismo é uma condição genética que provoca a produção excessiva de melanina, o pigmento responsável pela cor escura.
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O cervo-do-pantanal tradicionalmente apresenta pelagem marrom-avermelhada, com a região ventral mais clara e as partes inferiores das pernas e a cauda pretas. A espécie é o maior cervídeo da América do Sul, podendo atingir até 130 quilos.
Primeiros registros e diferenças entre biomas
No Pantanal, a mutação nunca tinha sido confirmada em mais de 40 anos de pesquisas e levantamentos aéreos. O bioma abriga cerca de 40 mil indivíduos, o equivalente a 88% da população brasileira da espécie.
Anteriormente, foram registrados apenas indivíduos com mutações genéticas como albinismo ou de leucismo, que deixa a pelagem branca.
O primeiro registro oficial ocorreu em fevereiro de 2021, na fazenda Caiman Pantanal, em Miranda (MS), quando uma fêmea adulta melânica foi fotografada pela equipe.
Veado preto registrado pela primeira vez
Taile Emanuele/Onçafari
Apesar de não haver registros científicos anteriores no Pantanal, pesquisadores ressaltam que moradores locais já relatavam avistamentos antigos, como na região conhecida como Baía do Cervo Preto, próxima à Estação Ecológica de Taiamã (MT).
Já no Cerrado, onde a espécie é considerada criticamente ameaçada de extinção, a frequência de avistamentos desses animais escuros surpreendeu os cientistas.
Entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, 66,7% das observações diretas da espécie na região envolveram indivíduos melânicos (ao menos dois machos distintos).
Recentemente, a equipe também registrou um macho juvenil com a mesma mutação.
"Acreditamos que esses animais estejam confinados nos limites do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, já que as áreas externas estão degradadas e sofrem forte pressão de caça. Isso resulta em isolamento populacional e, muito possivelmente, em uma maior frequência de indivíduos com melanismo", explica Edu Fragoso, coordenador da base do Onçafari na unidade de conservação e coautor do estudo.
Comportamento e hipóteses científicas
Todos os indivíduos melânicos foram observados em áreas próximas a zonas inundáveis (especialmente veredas), alimentando-se a no máximo 580 metros de fontes de água.
Entre os comportamentos documentados, os pesquisadores registraram:
Atividades normais de alimentação e convivência com cervos de coloração padrão;
Um possível evento de pareamento entre um macho melânico e uma fêmea de pelagem normal;
A associação de um cervo com um gavião-carrapateiro (Milvago chimachima), que permaneceu pousado sobre o dorso do animal enquanto ele se alimentava.
Uma das hipóteses para a alta taxa de melanismo no Cerrado é que o isolamento de pequenas populações (endogamia e deriva genética) facilite a expressão do gene recessivo. A tese, no entanto, ainda passará por investigações genéticas mais aprofundadas.
Possíveis desvantagens da pelagem escura
Veado preto e marrom juntos no Pantanal
Taile Emanuele/Onçafari
Embora a mutação seja um achado biológico relevante, a literatura científica alerta que alterações de pigmentação em mamíferos podem trazer prejuízos à sobrevivência.
Entre os riscos potenciais para os "veados-pretos" estão:
Maior vulnerabilidade a predadores: facilidade de visualização por grandes carnívoros, como a onça-pintada;
Dificuldades fisiológicas: problemas na regulação da temperatura corporal (termorregulação) e menor proteção contra radiação ultravioleta;
Impactos na saúde: maior suscetibilidade a doenças e potencial redução nas taxas de reprodução e longevidade.
Ameaças à espécie
O cervo-do-pantanal é classificado como Vulnerável no Brasil. Além da perda de habitat, a espécie sofre com incêndios florestais, caça ilegal, mudanças climáticas, construção de barragens e contaminação por doenças transmitidas por animais domésticos.
No Cerrado, o cenário é crítico devido ao avanço da agricultura irrigada por pivôs centrais, que seca as áreas úmidas essenciais para a sobrevivência do animal.
Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: