Plano de R$ 63 milhões para triplicar cargas na Hidrovia do Rio Paraguai acende alerta ambiental no Pantanal

  • 09/06/2026
(Foto: Reprodução)
Plano de R$ 63 milhões para triplicar cargas na Hidrovia divide opiniões no Pantanal O Governo Federal prevê lançar entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027 o edital de concessão da Hidrovia do Rio Paraguai. O projeto prevê investimentos para ampliar a navegabilidade e aumentar a capacidade de transporte de cargas, que pode passar dos atuais 8,5 milhões de toneladas para até 30 milhões de toneladas por ano até 2030. Veja o vídeo acima. A proposta é considerada estratégica para o escoamento da produção de Mato Grosso do Sul e de outros estados da região Centro-Oeste. Por outro lado, ambientalistas, pesquisadores e representantes de comunidades ribeirinhas alertam para possíveis impactos sobre a dinâmica natural do Pantanal. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), a hidrovia movimentou cerca de 8,5 milhões de toneladas de cargas em 2025. Entre os principais produtos transportados estão minério de ferro, soja e outras commodities destinadas ao mercado internacional. O que prevê a concessão da Hidrovia do Rio Paraguai Transporte de minério pelo rio Paraguai. Reprodução A Hidrovia do Rio Paraguai forma um corredor logístico que liga Cáceres (MT) a Nova Palmira, no Uruguai, passando por Brasil, Paraguai, Bolívia e Argentina. O projeto de concessão em análise pelo Governo Federal contempla cerca de 600 quilômetros entre Corumbá e a Foz do Rio Apa, em Porto Murtinho, além do Canal do Tamengo. De acordo com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), o investimento inicial estimado é de R$ 63,8 milhões. Por se tratar de uma hidrovia internacional, que atravessa territórios de diferentes países, a concessão depende também de análises técnicas e entendimentos diplomáticos, o que pode influenciar o cronograma do projeto. Segundo o Ministério de Portos e Aeroportos, a futura concessionária deverá assumir serviços como dragagem, derrocagem, sinalização e manutenção da navegabilidade. A expectativa da Antaq é que a movimentação anual de cargas passe dos atuais 8,5 milhões de toneladas para algo entre 25 milhões e 30 milhões de toneladas até 2030. Governo e setor produtivo defendem ampliação da hidrovia Para o governo estadual, a melhoria da navegabilidade pode ampliar a competitividade da produção sul-mato-grossense e reduzir custos logísticos. "O modal hidroviário, ele é aquele mais eficiente, mais barato e também do ponto de vista de impacto das emissões de gás de efeito estufa, aquele que tem menos emissões. Então, ele é uma ferramenta fundamental, hoje subutilizada no nosso estado, justamente por alguma dificuldade de navegabilidade que existe em diferentes pontos, mas que tem um impacto muito importante para o minério de ferro e para toda a produção agrícola do nosso estado", destacou o secretário da Semadesc, Artur Falcette. Segundo Falcette, parte da produção que hoje depende do transporte rodoviário poderá migrar para a hidrovia caso o projeto avance. "A gente tende a ter toda a produção dessa região que hoje é escoada pela rodovia migrando para a hidrovia, a partir do momento que ela tenha condições adequadas de navegação e um projeto estruturado de exploração. O Ibama segue cuidando desse licenciamento ambiental e o Estado tentando defender junto ao governo federal a importância estratégica que esse projeto tem". Ambientalistas alertam para impactos no Pantanal Os benefícios econômicos esperados com a concessão não são consenso. Durante audiência pública realizada em Corumbá, organizações ambientais, pesquisadores, lideranças indígenas, pescadores e moradores da região questionaram os impactos ambientais e sociais do projeto. A concessão prevê intervenções em aproximadamente 590 quilômetros do trecho sul da hidrovia para garantir a navegação durante todo o ano. Entre as exigências operacionais está a manutenção de profundidade suficiente para a circulação contínua de grandes comboios de carga. Segundo a coordenadora científica da SOS Pantanal, Stefani Oliveira, a principal preocupação não está na navegação em si, mas nas intervenções permanentes previstas ao longo do Rio Paraguai. Estudo utilizado no planejamento da hidrovia identificou 53 pontos considerados críticos para a navegação nos trechos norte e sul do rio. Nesses locais estão concentrados bancos de areia, estreitamentos naturais, curvas e afloramentos rochosos que influenciam o fluxo das águas. "Esses estreitamentos funcionam como verdadeiros funis naturais que desaceleram a correnteza e ajudam a manter o efeito de remanso, essencial para o ciclo de cheias e vazantes do Pantanal", comentou Stefani Oliveira. Para garantir as condições de navegabilidade previstas no projeto, estão programadas dragagens periódicas e derrocamentos, incluindo a remoção ou fragmentação de formações rochosas. Na avaliação da pesquisadora, essas intervenções podem alterar a dinâmica hidrológica da planície pantaneira. "A dragagem aumenta a vazão do rio. Quando se acelera esse fluxo, há impactos sobre áreas alagáveis, habitats aquáticos, biodiversidade e também sobre as comunidades ribeirinhas que dependem diretamente do comportamento natural das águas." Stefani também defende que os efeitos das mudanças climáticas sejam considerados de forma mais ampla nos estudos do projeto. "A crise climática precisa fazer parte dessa discussão. Estamos planejando intervenções permanentes em um sistema que já está sofrendo alterações importantes no regime hídrico. Isso aumenta as incertezas e os riscos para o futuro do Pantanal." Questionamentos sobre transparência e licenciamento Outro ponto criticado durante a audiência pública foi a composição do Comitê Permanente de Dragagem da Hidrovia do Rio Paraguai, previsto no projeto. Segundo os participantes do debate, o colegiado responsável por acompanhar as intervenções não contará com representantes da comunidade científica, universidades, organizações ambientais ou populações tradicionais diretamente afetadas pelas obras. A representante da Environmental Justice Foundation (EJF) no Brasil, Luciana Leite, afirmou que os impactos da hidrovia precisam ser avaliados em toda a bacia hidrográfica do Rio Paraguai, que se estende por cerca de 3,7 mil quilômetros até os portos argentinos. "A sociedade precisa ter acesso aos estudos, aos critérios técnicos e às decisões que estão sendo tomadas. Falta transparência e participação efetiva de quem produz conhecimento sobre o Pantanal e vive nessa região", apontou Luciana Leite. Ela também questionou o avanço de investimentos relacionados ao empreendimento antes da conclusão do processo de licenciamento ambiental. "O BNDES já concedeu cerca de R$ 4 bilhões para financiamento da compra de empurradores e balsas destinados à hidrovia do Paraguai, enquanto o projeto ainda não passou por todas as etapas do licenciamento ambiental." Segundo Luciana, a antecipação desses investimentos pode aumentar a pressão pela aprovação do projeto mesmo diante das incertezas sobre os impactos ambientais. Nível do rio influencia logística da região Atualmente, o Rio Paraguai registra 2,39 metros na régua da Marinha em Ladário. O nível permite a passagem de comboios e barcaças, mas a chegada do período de estiagem costuma reduzir a profundidade em alguns trechos e dificultar a navegação. Quando isso ocorre, parte da produção é transferida para as rodovias, aumentando o fluxo de veículos na BR-262, principal corredor terrestre de escoamento da região. É justamente a redução dessas limitações operacionais que motiva a proposta de concessão da Hidrovia do Rio Paraguai, projeto que ainda depende de licenciamento ambiental, análises técnicas e acordos internacionais antes de sair do papel. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul:

FONTE: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2026/06/09/plano-de-r-63-milhoes-para-triplicar-cargas-na-hidrovia-do-rio-paraguai-acende-alerta-ambiental-no-pantanal.ghtml


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